domingo, 14 de outubro de 2007

O Desentupidor de Almas


O fato de ele dormir 18 horas por dia sem remorso algum já é motivo suficiente para admiração. O fato de, mesmo assim, ele conquistar a todos sem nem mesmo dizer palavra também. Quando fomos buscá-lo, ele foi escolhido porque era o único que se mexia freneticamente quando coçávamos seu ventre enrubescido e inchado, como de vermes. Ele estava sem seus irmãos, no meio de dois outros bebês de cores diferentes. Eu segurava-o com receio de esmagar porque era deveras pequeno e frágil.

Numa tentativa esdrúxula de inibir o apego a este ser, nos primeiros meses, ele tinha uma área restrita de circulação na casa, que aos poucos foi se alargando – e muito. Sua vida andou sem muitos percalços graves, afora o mês e meio de treinamento intensivo na escola. Um talento inato para desobedecer o fez pegar recuperação no centro de treinamento e até hoje penso que ele conseguiu passar pelas provas consciente de que não estava aprendendo, afinal aquilo ali não era para ele. Sua vida o esperava com pudins mais moles. Fez os exercícios necessários com um olhar indiferente, como quem dizia: Tsc, tsc...vocês não sabem nada...

De fato, as coisas aconteceram de forma aprazível para ele. Conquistou seu espaço aos poucos, mas sempre com muita perseverança, grunhidos e olhares de gato-de-botas. E embora tenha se deparado com derrotas – como quando lhe foi cortada a comida que era substancial e servida 2 vezes ao dia – fez de conta que nada acontecia e sempre conseguia tudo de volta.

Em relação aos aspectos físicos, pode-se dizer que sempre foi bem nutrido. Quando jovem e mais ativo, ficava mais tempo fora de casa e isso o poupava de uma barriga que hoje em dia é protuberante. Devido a ela, teve problema nas articulações – muito peso extra para carregar, disse o especialista.

Nunca teve relações amorosas duradouras. Flertou bastante certa época, mas alguns pequenos desencontros o privaram de vivenciar por completo o sexo oposto. Isto ainda hoje é um trauma e eu espero poder ajudar ofertando-lhe uma noite a sós com uma qualquer. Sim, mero prazer carnal. Enquanto isso ele devota-se fielmente a uma namorada imaginária, que, embora ele fantasie exuberante, não passa de uma almofada encardida. Nunca me disse o nome dela. Respeito e não pergunto nem conjeturo.

Essa sua necessidade de realização carnal parece, no entanto, ser amenizada por seu amor pela alimentação. Quando o vejo se alimentar na minha frente percebo nos seus olhos uma determinação violenta, completamente instintiva. Come como se fosse um selvagem e só pára quando não resta nada mais em seu prato – a não ser quando a comida é artificial, algo que de fato ele detesta.

Voltando aos aspectos existencialistas, desde que voltou da escola fingindo ser educado, teve como resolução máxima livrar-se das amarras impostas por uma sociedade que parecia não lhe entender. Por que ele não podia viver normalmente? Apesar de ser fisicamente diferente da maioria das pessoas, ele acreditava – e até hoje acredita – que podia ser membro de uma família, ter uma função e estar inserido com igualdade neste mundo.

Em princípio, conseguiu com que todos a sua volta esquecessem que ele havia passado algum tempo no centro de treinamento. Logo não se preocupava em atender tudo que lhe pediam, e seu caminho para a libertação começava a ser traçado. Não queria incomodações, porém fazia questão de poder ir até rua e enxergar os outros ao menos uma vez por dia. Isso o fazia sentir-se vivo, seu sangue circulava e seu olfato era exposto aos mais diversos cheiros – talvez o único prazer estético que ele tem - e isso era importantíssimo para quem não conseguia articular nenhuma palavra. A vida deste serzinho se resolvia na pura apreciação da Sinfonia dos Cheiros (essa idéia é do Paul Auster, não minha...)

Embora tivesse uma cama só para si, não descansou até que lhe permitissem dormir onde quisesse. Demorou um tempo, mas ele conseguiu entrada em todos os cômodos da casa e ninguém o impedia de descansar em paz suas 18 horas diárias. Eis um venerável feito – não trabalha, não estuda, não fala com ninguém e consegue subir na vida de tal forma.

O uso das 6 horas restantes é diverso: passeios de 20 minutos (um pela manhã e outro ao entardecer), necessidades fisiológicas e entretenimento variado – desde meditação na janela até tentar coçar as próprias costas sem usar as mãos. Este último eu até tentei e admito que é até bem agradável... Costuma também armazenar comida em locais remotos dentro da casa, pois sempre fica preocupado, achando que talvez as pessoas possam desconfiar do seu jeitão calado e cortar-lhe as regalias conquistadas com tanto afinco.

Acredito, porém, que este posto e todos os seus privilégios inerentes dificilmente lhe serão tirados. Além de tudo, ele exerce com excelência uma função no ambiente doméstico, e esta se tornou uma necessidade vital para seus residentes. Todos que passam por ele, o acariciam ou dizem algo com inflexão carinhosa, e assim sentem-se um pouco mais perto do céu. Mesmo quando está sozinho ele senta-se perto de alguém e com jeitinho pede que façam carinho, que exercitem um pouco sua alegria com ele. Assim ele acaba atuando como um desentupidor de almas, um polarizador de afeto e então fica evidente a tal necessidade de dormir 18 horas por dia.