domingo, 10 de junho de 2007

Tampinhas de Garrafa



Ele pesava no mínimo 110 quilos, quase o dobro do meu peso. E parecia também ter o dobro da minha idade. Era a quarta vez que ele passava correndo e eu buscava. Suava em bicas e sempre tomava a água do copinho que os organizadores davam cuspindo metade fora, no estilo “spray”- assoprando e cuspindo ao mesmo tempo- molhando os que estavam em sua volta. Pensava eu: não pode! Esse gordo não pode passar por mim! Eu treinei por quatro meses pra essa corrida e esse cara vai chegar na minha frente? Não. Depois da quarta vez que ele me passou, tomei a dianteira de vez e virando a cabeça pra trás, sem nenhuma expressão no rosto, com o canto dos olhos disse o que havia de ser dito: Engole essa, gordão!

Este ano começou e depois de alguns dias subitamente formei uma idéia/resolução para meu primeiro semestre: vou correr os 10 km da rústica de Porto Alegre em maio. Não é de meu costume prometer coisas e não cumprir, e todas as vezes que faço isso fico com um remorso terrível. Comecei a treinar quatro vezes por semana e só perdi uma por motivos médicos. Meu primeiro treino durou 30 minutos e corri só uns 5. Meu último treino durou uma hora e meia e corri 1h05min. Virou rotina extremamente agradável esta da corrida e acabou sendo as vírgulas e pontos deste primeiro semestre que se encerra.

A cena descrita no primeiro parágrafo aconteceu de fato nos primeiros quilômetros da rústica. Apesar da narrativa de traços competitivos, o foco da corrida não fora esse. Eu até achei o gordão bacana, estava ali correndo que nem louco pra se divertir - como eu. E quatro mil pessoas correndo soltas como bichos pelas ruas é fato interessante o suficiente para transformar essas horas em algo divertido.

Tudo bem, isso explica o evento da corrida, mas e os meses que a antecedem, a rotina de treinos, a preguiça, os dias de chuva, os dias de frio e de calor extremos? Por que um sujeito iria ficar correndo em círculos por uma hora? Boa pergunta. E só quem já correu assim sabe o porquê. É uma prática que exige disciplina acima da média, pois a vontade de parar no segundo minuto é muito grande e, a não ser que se corra com amigos motivadores ao lado, o único Evandro Motta é a própria pessoa. Quando comecei ouvia o mp3, mas com o tempo ele começou a atrapalhar a minha concentração e larguei mão dele. Fico sozinho, em silêncio, correndo em círculos e isso inacreditavelmente me deixa com um sorriso maroto no rosto.

Faz tempo, notei que se eu desse uma tampinha de garrafa para meu cachorro Homer, ele transformava-se no ser vivo mais feliz do planeta. Isso desde então se tornou pauta de diversas reuniões comigo mesmo e uma das minhas metas de vida: conseguir realizar-me com coisas poucas e simples. Seria a solução pra muita coisa, assim como a revelação do segredo do universo. Com esse hábito da corrida sinto que estou um pouco mais perto disto. E o gordão que o diga.