sábado, 10 de fevereiro de 2007

Vinte segundos de convicção...

Abaixo estão dois textos postados no mesmo dia. Prometi pra mim mesmo:um texto por semana. Estes são os das duas últimas. Tardo mas não falho.

Traços característicos

Eu não tenho assinatura. Não consigo escrever meu nome igual duas vezes. Sempre antes de fazer um documento, assinar coisas sérias, eu treino. Juro que capricho, me esforço para tentar reproduzir o rabisco anterior, mas nunca, nunquinha eu consigo. Minha mão parece não obedecer e sai desvairada em toda ocasião do tipo. E estes espasmos botam no mundo uma nova assinatura - completamente diferente - a cada vez.
Certa feita assinei um documento no banco, e o rapaz que me atendia disse não ser o mesmo registro que ele tinha e, portanto, não poderia fazer nada caso eu não conseguisse repeti-la. Eu falei que já havia muito tempo desde aquele registro e que a assinatura naturalmente havia mudado agora que eu já era crescido. Ele aceitou a desculpa e pediu então que eu registrasse esta nova, cinco vezes. Assinei todas as vezes sem saber ao certo qual era a tal nova assinatura e claro, nenhuma foi igual a outra. Olhei consternado para os borrões, já esperando uma nova folha com aqueles cinco desafiadores espaços, sabendo desta minha incapacidade específica. Para meu espanto, o rapaz aceitou o que estava ali. Disse que mesmo sem serem idênticas as assinaturas, os traços eram característicos. ? .........? .......
Por alguns instantes, vislumbrei meus traços característicos naquele papel. Mas durou pouco, foi só aparecer outra oportunidade para eu demonstrar minha recém-adquirida habilidade para esta desaparecer por completo. Minha mão voltava a tremer, e, com os mesmos espasmos, dava vida a mais uma assinatura, novinha em folha, brilhando em sua imprecisão e sem os traços de antes. Tudo diferente. O que se manteve? Os espasmos, a tremedeira e a mudança.

Hiato

As férias só existem de verdade para mim neste pequeníssimo momento que separa o trabalho e o início das férias propriamente ditas. Ali eu descanso em paz. Antes das férias eu faço trilhões de planos exorbitantes, que convicto prometo realizar nos meus utópicos momentos - chego a fazer listas... esperando a recompensa. E assim o tempo passa. E a recompensa não vem coisa nenhuma.
Quando eu de fato paro e tenho férias, a sensação é de contagem regressiva e acabo não fazendo nada do planejado em todas aquelas listas. Cada segundo que passa é um segundo a menos de férias. E se eu me ocupar com algo, logo haverão se passado várias horas. Não posso perder várias horas! Várias horas a menos de férias! Preciso saber usá-las! A letargia domina.
Isso é culpa do Papai Noel, do Reveillon e das saudosas férias de três meses inteiros na praia comendo milho verde com margarina. Os meses de Janeiro e Fevereiro sempre tiveram o poder de renovar tudo. Agora não mais. Mas aquele momentinho, a entre safra, o hiato entre o ano normal e as férias, ah! ele ainda existe. E o desse ano já passou. Droga.